segunda-feira, 7 de agosto de 2017

A Bailarina de Cecília Meireles, poemas recortados e os murais de escola



Eu me lembro de não gostar muito de poesia quando era criança. Na escola em que estudei, uma pequena escola de bairro cujo nome dado a ela homenageia o décimo quinto prefeito da cidade em que nasci, Itumbiara, chamado Adelino Lopes de Moura. Na minha época de estudante dos anos iniciais, década de 1987, a escola possuía quatro salas construídas com placas pré-moldadas e piso vermelho feito de cimento queimado. Lembro-me daquele chão polido na cor do sangue, tão lustrado que reluzia nossos tênis e as caretas que fazíamos diante dele. E quando corríamos pelo pátio manchávamos com rajadas de escorregão aquele piso encerado.

Naquela época cantávamos e dançávamos músicas lúdicas antes das aulas serem iniciadas. E lembro-me que ao invés de prestar atenção no que as instrutoras nos indicavam para fazer, eu deixava fugir o meu olhar para os cartazes exageradamente produzidos, cheios de florões de seda, camurça e papel crepom.

Num desses cartazes de cartolina havia um desenho feito à mão livre, o desenho de uma bailarina de cabelos louros a ilustrar o poema também escrito à mão. O poema se chama A bailarina, aquele bem famoso da poeta Cecília Meireles. Apesar de ter lido aquele poema por várias vezes, ora na entrada, na saída, no recreio ou no momento da ginástica laboral com cantigas, eu nunca o decorei, ficava com o olhar preso nos detalhes disformes nos pés daquela bailarina feia de bracinhos assimétricos elevados para o alto.

Aprendi a gostar de poesia quando já estava no Ensino Médio, com Gregório de Matos. E passei a ter o hábito de garimpar livros descartados para emoldurar os poemas de que gostava em molduras de papel. Aqui seguem dois dos sobreviventes: Nunca de Biafra e o Inverno de Sérgio Caparelli. É impressionante a capacidade de transformação das formas, da cor e da textura do papel, e também a nossa capacidade de julgar a técnica e qualidade de alguma coisa. E mais impressionante é conseguir acessar, ainda que parcialmente, fragmentos de um tempo vivido quase de forma inconsciente ao ponto de, por pouco, chegar a sentir o que se sentia. 






Nunca

Aprendi que, depois do horizonte,
há mais horizonte.
Aprendi que não existe limite,
a não ser o nosso próprio limite.
Aprendi que não existem mortes,
mas vida que sai de dentro da vida.
Apesar de todo o esforço do homem,
ele nunca encontrará a morte absoluta.

(Biafra, Antologia da Nova Poesia Brasileira, p. 45, Editora Hipocampo, Rio, 1992)



Inverno

Nesses dias de inverno
em que a chuva fustiga a vidraça,
sonho desperto, as mãos
na nuca. Olho o teto, a praça,
e cavalgo uma moto possante
pelas estradas do Sul.
Treme de febre o pampa,
treme a cordilheira e o Aconcágua.
Estico minha ânsia sob o sol e neve,
cuspo salitre
e vomito este Pacífico
que me persegue.

(Sérgio Caparelli, Rastros de Arco-Íris, p. 64, L&PM Editores, Porto Alegre, 1985).

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

In a Heartbeat, as diferenças, a afeição e a emasculação



O curta de animação In a Heartbeat finalmente estreou no dia 31 de julho. O filme com duração de quatro minutos está disponível gratuitamente na plataforma do YouTube. O gênero produzido em computação gráfica, pouco me agrada, mas tenho observado que dentro do gênero têm sido lançadas animações com bastante qualidade nos últimos anos.

O filme idealizado e realizado pelos estreantes de cinema Beth David e Esteban Bravo só foi possível porque teve financiamento coletivo. A ideia inicial era arrecadar U$ 3 mil, mas acabaram por arrecadar um total de U$ 14 mil no mês de novembro de 2016, apenas para a finalização do projeto.

A temática do curta é bastante polêmica, mesmo no contexto do século XXI, embora seja conduzida com bastante naturalidade. Conforme já havia comentado em postagens passadas, vivemos em um mundo onde é tolhida aos homens a capacidade de sentir com afeição, de demonstrar afeto, de ser acolhedor e sensível; discorri sobre isso pontualmente quando da estreia do filme para a televisão The Normal Heart (2014).

No curta de animação In a Heartbeat (2017), traduzindo para o português seria algo como, Na Batida de um Coração, há a narrativa de dois garotos estudantes no pátio de uma grande escola. Um deles é ruivo — há toda uma simbologia histórica acerca das pessoas ruivas, principalmente nos países nórdicos. O garoto ruivo se vê tomado pelo que visualiza no garoto moreno, e apesar de seus olhos se comportarem de modo contido, ainda que estatelados pelo acometimento da surpresa, o coração do menino ruivo salta do peito dele e vai ao encontro do garoto moreno e, assim, se inicia uma profunda aventura que entrecruza percepções visuais, afeição e a razão.

Em tempos de retrocesso e medo do novo [nada novo vide nossos ancestrais], temos percebido uma constante manifestação partidária e ideológica bastante combativa no que diz respeito à questões relacionadas as discussões de gênero, racismo, feminicídio, homofobia e sexualidade. Muitas vezes essas vozes reacionárias partem de pessoas com pouco conhecimento elaborado ou até mesmo de pessoas que querem doutrinar coletivamente a partir de suas convicções de crença. Todavia o que nos faz interessante entender neste curta de animação é o fato de o filme não estar comprometido político ou ideologicamente a fazer a defesa ou o incentivo da homossexualidade na infância, não se discute essa realidade, e também porque considerada a pluralidade identitária e a diversidade humana, o que interessa no contexto do curta não é a prática do sexo, mas sim a existência do afeto. A afeição é o prato principal em In a Heartbeat.

Ao contrário do que muitos desavisados têm dito; como por exemplo, estudar gênero na escola seria um crime porque induz as crianças a serem sexualizadas precocemente ou a se tornarem homossexuais ou bissexuais — um medo coletivo que tem acometido muitos pais —, a discussão sobre a diversidade étnica, familiar, sexual e de gênero, tem sido inserida apenas para dirimir a violência do racismo, da homofobia, da gordofobia, da misoginia e de tantas outras fobias que macularam o seio social desde os primórdios da construção do ambiente escolar. E embora as crianças sejam bastante espontâneas e sinceras, elas não são preconceituosas por natureza, é a natureza condicionante dos seus pais que as induzem a se tornarem seletivas, excludentes e cruéis com relação às diferenças. As diferenças sempre existiram e continuarão a existir, mas cabe a nós escolhermos de que forma lidaremos com elas.


segunda-feira, 10 de julho de 2017

Manhã de segunda

Naquela manhã de segunda-feira, Olívio ainda se mantinha debruçado sobre a cama, era pouco mais de onze horas. No rádio tocava Romance Del Diablo com os instrumentais de Astor Piazolla. Naquele instante o sol já não atravessava a vidraça, e a pele descoberta de Olívio estava tingida de luz com tanta latitude que ele nem parecia ter a tez escura. Deixou que os olhos caminhassem por sobre o contorno dos braços longos a procurar entre os poucos pelos, os sinais azuláceos das veias finas a irrigarem todo o seu membro.

Olívio se perdeu na ideia que tinha sobre viver uma rotina atravessada por espaços e calçamentos, vias largas, dias quentes, queixumes e quereres. Ele queria mesmo era desnudar-se de dúvidas e seguir o fluxo de pessoas a caminhar na direção do nada. Ele tinha obsessão pela morte; talvez não necessariamente pela ideia da morte, mas pelas vazões a saturar os sentidos que a morte não povoa nas inquietações do humano. Aprendemos a temer a morte. Mas, e se ela fosse tão bela quanto os acordes virtuosos daquela peça a tocar harmoniosa os seus ouvidos?

Estático a remoer o intenso cerzir da mente. Olívio parecia um corpo desfalecido sem o sopro da alma. Sem possuir as identidades que o clivava. A correria do tempo a apurar lentamente os refrãos, o amor romântico que há tanto tempo já não fazia sentido em seus dias. Nem mesmo a vontade de gozar com o outro o possuía mais. Era como se tudo estivesse estanque, e ele dopado por desvenlafaxina.

O telefone tocou até cessar. Na terceira sequência de chamadas, Olívio se levantou aturdido com o rosto sisudo, e percebeu no reflexo do espelho que a marca de expressão que possuía entre o nariz e a testa estava mais firme, ele a esticou com os dedos. O telefone tocou novamente por alguns minutos até Olívio decidir atendê-lo. Ele disse alô em doce calma, seguido de um bom dia em notas graves. 

Olívio havia se esquecido da reunião matinal desta segunda-feira. De repente, de forma abrupta, ele acelerou os movimentos ao desligar o aparelho, seguiu rapidamente com a escovação dos dentes, o banho, a barba. Olívio era um homem do seu tempo. Ele estava vivo a abraçar a sua condição humana, e já não havia mais o tempo do pensar.

domingo, 23 de outubro de 2016

Departure



Com uma estética minuciosa e laboriosa com ênfase nas cores, nas afeições e nas representações visuais, Departure de Andrew Steggall se inicia com uma cena isolada de fuligens. E só compreenderei o significado desta cena quase ao final do filme que dura cerca de duas horas. Finalmente consegui assistir a este filme após dois anos de espera, e a sua primeira cena me foi surpreendente porque tenho um poema sobre fuligens, e este está a falar exatamente sobre o ocaso e as afeições.

São inúmeras as referências consagradas ao longo de toda a trama. E me senti beneficiado por todas elas, principalmente quando o filme apresenta o humano em sua nudez contemplativa e visceral, seja nas notas do piano responsáveis pela organicidade das cenas, seja nas representações da cor azul do céu refletida ora no espelho de um lago adormecido, ora nos lençóis do adolescente Elliot (Alex Lawther), ora nas representações visuais de São Sebastião, e também do Jovem Nu Sentado a Beira do Mar (1855) do pintor francês Jean-Hippolyte Flandrin, minha pintura favorita depois de algumas de Caravaggio.

E é exatamente sobre a juventude e o ocaso dela que Departure desenvolve o seu mote e nos prende atenção; é como se Andrew Steggall quisesse nos dizer que aquele jovem nu de Flandrin tem uma história, e que essa história contempla o nosso íntimo. A produção é franco-inglesa.

Uma mulher inglesa forte, Beatrice, interpretada por Juliet Stevenson, viaja com seu filho Elliot, de quinze anos, para o interior do Sul da França. O que parecia uma viagem simples de férias apresenta-se enquanto uma viagem repleta de sentidos perdidos entre o passado iminente e o futuro também iminente: ambos vão se encontrar para provocar a catarse e a irrupção.

Beatrice traz consigo uma carga emocional que salta pela sutileza dos seus gestos, da fala contida, da sensação do vazio. Elliot é a personagem mais efusiva, em primeiro instante porque a sua razão de ser é apresentada apenas para justificar o sentido dado aquela casa de veraneio, às emoções reprimidas de sua mãe, e a representação suprimida da possibilidade de um pai ausente. Segundo porque Elliot ganha forma e sentimento quando este conhece Clement (Phenix Brossard), tudo aquilo que ele não é, mas gostaria de ter, talvez pelas ausências e, ainda, pela coragem de desejar a vida.

Elliot quer ser escritor, ele fala isso ao comerciante dono do café, e repete ao amigo Clement. Todavia Clement me parece nada mais que uma projeção possível e cerceada, de um adolescente cuja família destruída pela condição econômica e pela doença, se encontra no entrelugar de onde a saída não parece viável, sequer a possibilidade do amar.

Por falar em amar, eu já discorri em outro texto a respeito do filme The Normal Heart, o quanto nossa sociedade nos ensina que meninos não amam, e não devem amar. E Clement, mesmo vivendo no campo, no interior do Sul da França, parece também ter aprendido essa lição.

As personagens principais, Elliot, Beatrice e Clement se abraçam solitárias em suas dores e ausências, porém repletas de si. Ao que me parece, nenhum deles dependem um do outro para se convergir sujeito. São autônomos em discurso e devir. Apesar de mulher, subjugada e triste, Beatrice se abraça, assim como nos representou Flandrin acerca de nossas solidões; Elliot também se abraça sob a chuva, a margem do rio ou dentro dele... Tem-se todos os elementos que reificarão a iconografia renascentista e a visão do neoclassicismos: os desenhos dos torsos, a nudez despudorada e com conteúdo ambivalente.

Elliot que parecia inicialmente representar a fraqueza e a falta, assim como a ausência da virilidade, toma para si o lugar do protagonista ao se jogar ao rio e apresentar o corpo clássico e alvo retratado por Flandrin. É neste momento que Steggall rompe com os paradigmas e faz eclodir o seu desejo pela subversão. A ordem foi rompida, e Elliot passa a existir em sua integralidade física e moral.

Os diálogos ao longo de toda a trama são permeados pela delicadeza do silêncio e das interpretações. A fotografia minimalista, detalhada seja nas representações sonoras do cantar dos pássaros, do tilintar da louça e talheres, do sopro do vento ao trepidar dos galhos, da madeira tomada pelas chamas, da água de um lago, ou das gotículas da chuva. Apesar de se tratar da estreia de Andrew Steggall no cinema mundial, Departure já está na minha lista de cinema autoral e de qualidade. É muito cedo ainda para dizer que entendo sobre a sua marca, mas acredito que a promessa se faz enquanto vida e arte.

domingo, 29 de maio de 2016

O Sorveteiro do Largo na Casa dos Espelhos - Parte I (Da série amor afrocentrado)


La Barbier Nègre à Suèz (1876) - Léon Bonnat
(Galleries Curtis, Minneapolis, Minnesota)



Leandro trabalhava pesado na sorveteria do Largo desde os doze anos. Perdia os olhos no reflexo de vozes que invadiam os ouvidos, no entra e sai de clientes apressados dentro dos seus dias corridos e importantes. Ele via na bancada de alumínio um espelho descentrado com o fragmento das almas das pessoas ilustres na direção da vida.

Em meio aquele arco-íris de sons, o silêncio fúnebre e escurecido, Leandro não parecia tranquilo naquela tarde de maio, pleno domingo de calor e movimento. Foi quando avistou ao longe a forma de um sentimento que lhe arrebentava o peito, estatelando o coração a empurrar o ar prensado nos pulmões.

O mês de julho arrastou-se lento e desalinhado. Naqueles dias, Leandro gostaria mesmo era de estar na escola a concluir o seu segundo grau e a saborear as férias entre semestres. Ele havia parado de estudar há três anos, quando o senhor Gervásio não o permitiu manter-se no trabalho por meio período. Se quisesse ser promovido à atendente haveria de ser dedicado; era somente dele a escolha: o dinheiro ou a escola. Depois disso, apenas o braço com o apoio das mãos sustentavam aquela cabeça abarrotada de sonhos possíveis.

No dia do mês em que se organizava a faxina, o estoque era reservado aos fundos, o atendimento era restrito aos itens dos armários e geladeiras no salão. E descalço, com os pezinhos negros enrugados com a abundância da água e do detergente, Leandro empurrava a sujeira com o rodo a observar o seu reflexo escuro e transfigurado por sobre a lâmina aquosa por entre a espuma. O piso de granito acinzentado recobria suas ilusões estanques, ainda que pisasse sobre ele, sentia-se parte daquele pedaço de rocha em grânulos.

Com o cabo do rodo em mãos, Leandro se virou para a porta entreaberta e recostou-se na pilastra a sustentar os andares de cima do prédio. O reflexo turvo de fragmentos possíveis denunciava a presença aturdida de um homem negro com barba cheia, vestido em seda azul marinho; o mesmo que um dia inspirou-lhe a vida naquela tarde de maio em que os sons criavam arco-íris refletidos no alumínio do balcão da loja. O timbre grave ressoava uníssono com as palpitantes aceleradas do seu peito. O homem perguntou a ele a respeito dos sorvetes com o sabor da fruta-do-conde. Leandro mal respirava em pausa, e deixou que o moço seguisse sem resposta.

Havia de ter dito algo - pensou depois do seu regresso. Saiu sem que se atinasse do intento. Era cliente recente, pouco assíduo. Um novo professor universitário da cidade... O senhor Gervásio cutucou-lhe a cintura e pediu a Leandro agilidade. Leandro devia acordar do sonho afrocentrado e não mais se enxergar refletido. Haveria de ser dedicado ao ofício, rapar a água e secar o piso. Outra vez acordado se percebeu imóvel sobre aquele pedaço granulado de rocha.