sábado, 2 de fevereiro de 2013

Lançamento da Antologia Amante das Leituras

ANTOLOGIA AMANTE DAS LEITURAS 
COSTA, Ana Maria; FERNANDES, Julio (Orgs.)
Temas Originais
Poesia; Contos - Literatura Estrangeira (Portugal) 2012 - 98 páginas ISBN: 978-989-688-126-9



Prefácio


"O bando das quimeras longe assoma...
Que apoteose imensa pelos céus!
A cor já não é cor – é som e aroma!
Vem-me saudades de ter sido Deus...”.
(do poema Partida – Mário de Sá-Carneiro)


“Quando desejo
que Deus me atenda
ajoelho as palavras
no centro dos seus olhos”.
(Pensamento VII – Ana Maria Costa) 



Ao receber o convite para apresentar esta edição da Antologia 2012 Amante das Leituras, fui tomado por um assomo de emoção incompreensível. Julguei-me jovem demais e amedrontado o bastante diante de um desafio de tamanha grandeza. A sensação do vislumbre e da impotência perante tal responsabilidade me calou; e o silêncio se estendeu por outros dias. No entanto, subitamente, fui arrebatado por uma voz a questionar o meu sossego. É silêncio de festa! — respondi. Silêncio de êxtase e medo… — pensava.

Veio-me em seguida a impaciência e a diligência sistemática da escrita. Pensei diversas vezes como apresentaria a profusão de textos e estilos organizados aqui. Pensei também em desistir por me considerar incapaz da ação, foi quando me surgiu a ideia do que nos é comum: os sentidos, capazes de apresentar a cor sem sê-la e lhe atribuir os mais profusos aromas. Decidi-me, assim, por apresentá-los à obra a partir do seu começo. Iniciado no complexo exercício do ofício deusístico de criarmos vidas.

Contrito na sua condição de observador, o flâneur caminha em círculos pelas ruas do centro de uma cidade moderna qualquer. Entre o temor iminente de um assalto, o atropelamento por ciclistas ou qualquer dos passantes motorizados, ele recria na mente as passa­gens de Dante Alighieri e Miguel de Cervantes, sabedor de que esses homens que se tornaram deuses após concatenarem palavras, um dia foram comuns. O flâneur pára e recomeça o pensamento a partir dos sentidos e de seus significados. Mas o que seria a literatura para ele? Quando ela se fez ou se faz na concepção do dia dos sujeitos das con­temporaneidades? Eis a questão.

Terry Eagleton, filósofo e crítico literário inglês, afirmou que literatura é qualquer coisa, e que tudo o que um dia foi literatura poderá deixar de sê-la, assim, tão simples e rápido como a mudança de percepção de quem acredita entender alguma coisa. Arrisco-me a dizer que para um leitor, o que se faz querer o torna alvo do desejo, e o seu efeito realizável é comum como o espaço do centro de qualquer rua moderna ocupado pelo apreciador de lirismos, ou seja, pelo flâneur. O diferencial para o leitor não está na palavra lida, mas nos sentidos que ela suscitará.

A rua, os excertos, o palpável e o observável circundam o uni­verso de quem escreve. E quem escreve o faz pelo desejo ou pelo amor às palavras ou por qualquer causa inerente a elas: a prata, o poder, a fome, o senso, o sexo e até mesmo a literatura.

A literatura pode ser um espaço de interconexão, um lugar, objeto, documento; o contraponto e a síntese contextual do imaginário popu­lar narrado, ao mesmo passo em que representa “uma violência orga­nizada contra a fala comum” ao se apropriar dela para transformá-la, formal e materialmente, em linguagem. Uma linguagem a impor uma consciência dramática renovando as reações habituais ao tornar os objetos do cotidiano mais perceptíveis aos olhos, e que “nos leva a vivenciar a experiência de maneira mais íntima, mais intensa. Estamos quase sempre respirando sem ter consciência disso; como a lingua­gem, o ar é o ambiente em que vivemos”1.

Pensar a conceituação da literatura é um pressuposto introdutório e banal, embora seja adequado para pontuar o objeto constitutivo ou material representado pela obra literária.

Vejamos esta edição da Antologia 2012 Amante das Leituras, e suas edições anteriores, não como a expressão coletiva do desejo pela causa consequente da escrita, mas a exemplo do flâneur, pela expressão da inflexão da individualidade de seus autores, que imprimem nesta obra as impressões das relações sensíveis possibilitadas por suas experiências individuais e pela relação coletiva construída ao longo de seis anos pelos membros da Amante das Leituras.

Os textos aqui reunidos presentificam a materialidade das nuances que afetam nossas mentes, revelando-nos sensações a edificar saberes e aguçar percepções. Poderia então dizer, a partir de cada agrupamento e ação verbal, desordem, lirismo e significado acendidos por meio das palavras e sentidos impressos nesta coletânea de poetas, cronistas e contistas, que somos o “bando de quimeras [que] ao longe assoma”2 a fazer-se mágica apoteótica pelos céus, sentindo-se deuses ao se mira­rem, de joelhos, “no centro dos seus olhos”3.

Mas ao considerar a materialidade nutrida do contexto sócio-his­tórico de cada um dos autores presentes nesta antologia, me questiono se Dante Alighieri e Miguel de Cervantes, tomados como clássicos, imaginaram o alcance e a relevância de suas obras no momento de sua escrita. Desse modo, penso também que cada autor publicado pelo rótulo da Amante das Leituras talvez desconheçam, na sua individuali­dade, o poder e o significado que compõem esse movimento literário inscrito na sua coletividade. Um movimento em favor da literatura que se inscreve na história do presente sem o rótulo nacionalista, haja vista sua amplitude continental, a contemplar, especialmente, os paí­ses lusófonos e hispanófonos — em consequência das origens de seus autores — e, consequentemente, todos que tenham acesso à virtude desse léxico globalizante.

Fez-se, finalmente, a palavra no instante em que sentimos a forma. Os sentidos sempre me chegaram antes de suas formas. E assim sub­verto ordens a constituir significados e compensações. Não sou único. À ideia ramificada em formato de rizomas, o percurso aleatório e asso­ciativo do encontro das letras, palavras e frases, constituíram esse livro. Parte de todos em consequência do uno. Porém, não somos únicos. A subversão a qual nos submetemos e que nos leva a materializar memó­rias nos transpõe no tempo, nos dando vida nova a partir de cada corpo possuído por nossos sentidos.

Vê-se o exemplo de quem ama. Fito. Rijo defronte o objeto amado, levado em consciência rumo ao seu desejo benevolente, sujeito à inconsciência. Amante. Leitor. Como já disseram, somos “eus escri­tores relacionais [que] se entrelaçam e desembaraçam, como vozes em um coro”4 de difusas nacionalidades.

Por fim, sigamos avante, à espreita da guarda, como confluentes cicerones.

Túlio Henrique Pereira
Vitória da Conquista, BA, dias finais do inverno de 2012.



1. EAGLETON, Terry. Teoria da literatura: uma introdução. Tradução de Waltensir Dutra, 5ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003. p.5
2. SÁ-CARNEIRO, Mário de. Partida, in: Dispersão. Lisboa: Gutenberg EBook, [1914]/2007. p. 8
3. COSTA, Ana Maria. Pensamentos VII, in: Nascido Tarde. S. Mamede de Infesta: Edium editores, 2007, p.18
4. REGINA, Sonia. Nota introdutória, in: GOMES, Ana Maria; FERNANDES, Júlio. Antologia Poética Amante das Leituras 2009. Paço de Sousa: ADL Edições, 2009. p.7

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