quarta-feira, 2 de agosto de 2017

In a Heartbeat, as diferenças, a afeição e a emasculação



O curta de animação In a Heartbeat finalmente estreou no dia 31 de julho. O filme com duração de quatro minutos está disponível gratuitamente na plataforma do YouTube. O gênero produzido em computação gráfica, pouco me agrada, mas tenho observado que dentro do gênero têm sido lançadas animações com bastante qualidade nos últimos anos.

O filme idealizado e realizado pelos estreantes de cinema Beth David e Esteban Bravo só foi possível porque teve financiamento coletivo. A ideia inicial era arrecadar U$ 3 mil, mas acabaram por arrecadar um total de U$ 14 mil no mês de novembro de 2016, apenas para a finalização do projeto.

A temática do curta é bastante polêmica, mesmo no contexto do século XXI, embora seja conduzida com bastante naturalidade. Conforme já havia comentado em postagens passadas, vivemos em um mundo onde é tolhida aos homens a capacidade de sentir com afeição, de demonstrar afeto, de ser acolhedor e sensível; discorri sobre isso pontualmente quando da estreia do filme para a televisão The Normal Heart (2014).

No curta de animação In a Heartbeat (2017), traduzindo para o português seria algo como, Na Batida de um Coração, há a narrativa de dois garotos estudantes no pátio de uma grande escola. Um deles é ruivo — há toda uma simbologia histórica acerca das pessoas ruivas, principalmente nos países nórdicos. O garoto ruivo se vê tomado pelo que visualiza no garoto moreno, e apesar de seus olhos se comportarem de modo contido, ainda que estatelados pelo acometimento da surpresa, o coração do menino ruivo salta do peito dele e vai ao encontro do garoto moreno e, assim, se inicia uma profunda aventura que entrecruza percepções visuais, afeição e a razão.

Em tempos de retrocesso e medo do novo [nada novo vide nossos ancestrais], temos percebido uma constante manifestação partidária e ideológica bastante combativa no que diz respeito à questões relacionadas as discussões de gênero, racismo, feminicídio, homofobia e sexualidade. Muitas vezes essas vozes reacionárias partem de pessoas com pouco conhecimento elaborado ou até mesmo de pessoas que querem doutrinar coletivamente a partir de suas convicções de crença. Todavia o que nos faz interessante entender neste curta de animação é o fato de o filme não estar comprometido político ou ideologicamente a fazer a defesa ou o incentivo da homossexualidade na infância, não se discute essa realidade, e também porque considerada a pluralidade identitária e a diversidade humana, o que interessa no contexto do curta não é a prática do sexo, mas sim a existência do afeto. A afeição é o prato principal em In a Heartbeat.

Ao contrário do que muitos desavisados têm dito; como por exemplo, estudar gênero na escola seria um crime porque induz as crianças a serem sexualizadas precocemente ou a se tornarem homossexuais ou bissexuais — um medo coletivo que tem acometido muitos pais —, a discussão sobre a diversidade étnica, familiar, sexual e de gênero, tem sido inserida apenas para dirimir a violência do racismo, da homofobia, da gordofobia, da misoginia e de tantas outras fobias que macularam o seio social desde os primórdios da construção do ambiente escolar. E embora as crianças sejam bastante espontâneas e sinceras, elas não são preconceituosas por natureza, é a natureza condicionante dos seus pais que as induzem a se tornarem seletivas, excludentes e cruéis com relação às diferenças. As diferenças sempre existiram e continuarão a existir, mas cabe a nós escolhermos de que forma lidaremos com elas.


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