quarta-feira, 13 de abril de 2016

Luis Miranda é a Sofia de A Cor Púrpura






Em 1985 eu tinha três anos de idade. Foi quando estreou nos cinemas norte-americanos o filme A Cor Púrpura de Steven Spilberg, um cineasta estadunidense de descendência judia, muito famoso e muito aclamado pela crítica especializada. Spilberg foi responsável por grandes marcos na história mundial do cinema ao falar sobre as mazelas históricas de seus ascendentes e também das políticas atuais.

O que pouco se sabe é que A Cor Púrpura não nasceu exclusivamente da mente de Spilberg, mas de uma escritora estadunidense negra chamada Alice Walker, aclamada e conhecida pela crítica especializada.

Não quero propor grandes teorizações, nem utilizar palavras difíceis, muito menos pretendo fazer uma resenha sobre o filme. Mas achei interessante propor este diálogo diante da grande hostilidade com que vem sendo tratado o ator Luis Miranda, por ter enviado um bilhete mal educado para uma cliente branca que o teria tratado por garçom durante jantar em um restaurante japonês no Rio de Janeiro. O que me impressiona neste fato é como a mídia em geral, e os comentaristas da Internet vêm enfatizando o preconceito de Luis Miranda para com a classe de garçons, e principalmente dizendo que o ator, assim como muitos negros sofrem racismo invertido, e também, o quanto o Luis Miranda foi grosso, indelicado, deselegante, desrespeitoso, imbecil e selvagem para com aquela inocente senhora.

Na verdade não há nada de errado no fato de a grande maioria tomar as dores da senhora branca e defenderem ela como tendo tido um ato impensado, despretensioso, inocente, sem cunho racialista, sem pretensão de lembrar ao ator do seu “lugar inadequado”. Os comentaristas que defendem a inocência desta senhora e culpabilizam Luis Miranda são a mais pura síntese de como o racismo é estrutural, geracional e está vivíssimo no Brasil. Afinal de contas são poucos 128 anos de Abolição. Um país de maioria miscigenada que experimentou por quase 400 anos a escravização compulsória, ilegal, e humanamente depreciadora da dignidade humana. O mesmo país que se recusa a reconhecer a fala e as potencialidades das pessoas negras.

A Cor Púrpura se passa no hiato entre 1909 e 1949, o filme fala sobre o racismo, machismo e classismo. Também discorre sobre laços e afetividades. Cita Oliver Twist, um dos meus livros favoritos.

A cena que separei é uma das que me provocam catarse todas as vezes em que assisto o filme. Gosto de ter meus filmes e gosto de vê-los sozinho. E é nesse momento que me reservo a chorar sem a necessidade de ser questionado pelo motivo de tê-lo feito. Enfim, vamos para a cena em questão...

Sofia (Oprah Winfrey) é a cunhada de Miss Celie (Whoopi Goldberg). Ela é uma das personagens que mantém um padrão de vida confortável. Cultiva e produz o seu sustento a partir da sua terra. Nos Estados, ao contrário do Brasil, houve uma conquista econômica da parte de ex-escravos, condições de possibilidade proporcionadas pelo Estado para que eles [os negros] pudessem gerar emprego e renda, e assim consumirem.

Não existe sistema capitalista sem o consumo. O Brasil é um dos poucos países capitalistas que nunca pensaram que deveriam dar condições aos seus ex-escravos de darem boa engrenagem ao sistema, tanto de modo intelectual quanto econômico.

Na cena em questão, Sofia passeia pelo comércio na cidade com seus dois filhos em seu veículo. Ela quer comprar, assim como todos aqueles que possuem renda para isso. E um padrão de vida que favoreça o consumo.

No pequeno vilarejo ela é interpelada por uma senhora branca bastante inconveniente que, sem qualquer autorização, começa a apertar os filhos de Sofia, beijar suas faces e acariciá-los, como se eles fossem objetos públicos para o deleite dela. Sofia não a censura, embora demonstre não ter gostado da atitude daquela senhora.

A senhora ‘inocentemente” ignora a condição econômica de Sofia apresentada pelo luxo de suas roupas, e, baseada pelo seu preconceito diante da cor da pele de Sofia, faz um convite bastante ofensivo a ela. A convida para ser a sua “Mammy”, no Brasil seria a clássica empregada doméstica. Sofia se ofende e recusa o convite também de modo ofensivo, mas ao contrário dela, a branca entende que Sofia jamais deveria se comportar de modo tão, digamos: grosseiro, indelicado, deselegante, desrespeitoso, imbecil, e selvagem para com uma senhora branca.

Imediatamente o marido da senhora branca toma as suas dores e vai até Sofia pedir que ela se desculpe com a sua esposa. Sofia não o faz, e então, o senhor branco decide que ela deverá ser punida com um soco na face, para que Sofia nunca se esqueça que ela deve ser delicada, obediente, resiliente, e muito passiva quando se dirigir a uma mulher branca. Sofia não deverá nunca se esquecer de que ela tem uma autorização para conviver em “harmonia” com os brancos, desde que os códigos dos brancos sejam sempre respeitados. Mesmo que isto implique na supressão de qualquer manifestação de descontentamento da sua parte. Qualquer atitude de Sofia poderá fazer com que o branco a puna severamente, pois as Sofias são constantemente policiadas.

Não demora muito para que todos os brancos se unam e comecem a espancar e xingar Sofia, afinal de contas “que negra inadequada! Ela deveria ser, no mínimo obediente e educada.”

Luis Miranda é a Sofia de A Cor Púrpura. Sua qualidade enquanto ator está sendo questionada pelos comentadores de Internet. Sua atitude está sendo tomada pela mídia como inadequada para um negr... Oops artista. Estão dizendo que ele deveria tratar a senhora branca que o confundiu com um garçom desuniformizado, com respeito, cautela e educação, até mesmo por respeito a seu público. Afinal de contas não há intenção racial na confusão “inocente” da senhora. E ainda que Luis Miranda tenha dito que sua revolta não se deu pelo fato de ser comparado a um garçom [geralmente os garçons no Brasil são negros], todos estão dizendo que ele foi preconceituoso com a classe.

Acredito que se não estivéssemos em 2016, onde as agressões estão amparadas pelo “anonimato” da Internet, Luis Miranda teria sido espancado fisicamente, assim como Sofia. E teria tido seu trabalho artístico boicotado, e toda a sua riqueza intelectual usurpada.

Sofia não teve força sozinha. Mas a sua rebeldia a rendeu um lugar na história, mesmo tendo ela sido obrigada a trabalhar como empregada doméstica da senhora branca em tempo integral. Sem o direito de ver os filhos crescerem, apenas para a felicidade, a tranquilidade e a paz da senhora branca que foi inocente e amável para com Sofia. A senhora branca não fez nada demais, ela apenas estava dizendo para Sofia se manter em seu lugar, assim como no Brasil, estamos pedindo para que Luis Miranda não tente ser nada além de um garço... Oops, um preto.

Diante do que tem acontecido no Brasil, é pensamento comum acreditar que, não importa o que digam as vozes de Sofias e de Luises. Essas vozes parecem continuar não sendo ouvidas.

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