domingo, 22 de junho de 2014

A Spathodea Campanulata e o jardim da infância

Há uma fotografia antiga na casa da minha mãe. Guardo os mesmos olhos de quando criança. No caminho do nosso passeio havia uma Espatódea (Bisnagueira ou Tulipeira-do-Gabão), uma árvore velha com cerca de dez metros de altura e muitos anos de vida.



Vídeo da música Winter Song One, do álbum Winter Games de Chris Garneau

O terreno do meu vovô Eurípedes guardava sobre si uma casinha de pretos. Só depois de adulto e de ter sido ceifada a árvore que eu tanto amava, foi que descobri que se tratava de uma espécie nativa das regiões tropicais da África. O vovô vivia reclamando da sujeira que a Bisnagueira causava. E ele tinha alguns motivos para isso, pois muitos pássaros lindos faziam morada no caule mole daquela árvore de aspecto senil, e isso fazia com que o pó do tronco sujasse todo o quintal de terra batida.

Fotografia de Antonio Correa

Mas não eram apenas os passarinhos que ajudavam na manutenção da sujeira e da ira do vovô. As crianças do bairro da Vila e eu costumávamos usar as bisnagas para atingirmos uns aos outros, em sucessivas brincadeirinhas de guerra. Não me lembro bem de qual era a estação do ano quando nasciam seus frutos e flores, mas me lembro que costumava fazer muito calor com mormaço sem chuva, depois alguns dias de céu nublado, e as férias que nos permitiam brincar por toda a tarde com aquelas bisnagas repletas de água para esguichar.

Antes de florescer, a Tulipeira liberava cachos amarronzados carregados com bisnagas de diversos tamanhos, algumas menores e saturadas de nódoa, outras grandes demais, já com flores germinando em seu interior. As ruas eram espaços de criancice, e brincávamos por toda tarde até que a noite caísse à nos alertar a hora do jantar.

Depois de tanto brincar e do findar das férias éramos punidos com o resultado de nossas brincadeiras: obrigados a vestirmos as roupas manchadas com a nódoa do xixi de macaco (era esse o nome que dávamos às bisnagas) para irmos à escola.

A Tulipeira-do-Gabão preenchia meus olhos quando perdia todas as suas folhas e parecia ter raiz inversa. E fazia com que eu me sentisse rico quando florescia plenamente, apenas para ornamentar a frente frágil daquela nossa casinha de pretos, com suas enormes flores campanuladas de cor alaranjada: foram por muito tempo da minha infância os meus bonecos-fêmeas de vestido.

Nunca houve nevasca em Goiás. Eu me lembro apenas de proteger o meu pequeno tamarindeiro de um período bastante frio e com geada, mas essa passagem vai ficar para um outro momento.


Fotografia de Mauricio Mercadante


Na pequena Itumbiara ocorriam muitas chuvas de granizo e fortes ventanias. As tempestades de terra vermelha anunciavam o período das chuvas, que eu também adorava; mas ocorreu que numa dessas tormentas de vento e terra, alguns galhos podres da Espatódea cobriram nosso passeio com suas flores e frutos. O vovô dizia que ela já estava grande e velha demais, e que seus galhos não eram fortes o bastante para suportar tanto vento. O vovô a cortou. Ele disse que de nada ela nos servia. O tronco remanescente sobreviveu por muitos anos depois, até após a morte do vovô.

Eu me lembro de quando menino dançar sozinho sob a sombra da Tulipeira. Aguardar as primeiras chuvas, apoiar a cabeça em seu tronco para contar os primeiros números na brincadeira de esconder. Lembro-me de chorar entristecido amparado nela. E me lembro de procurar por alguma passagem que me levasse dali para o interior do seu caule, onde existisse um reino dominado por sapos ou um lugar de maravilhas para o alívio daqueles dias de teimosia e punição.

Há na casa da minha mãe uma fotografia de quando eu era criança. Estou nos braços da minha tia Sirley. Ainda enxergo com o mesmo olhar daquela infância.

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