domingo, 20 de junho de 2010

Odeio a copa do mundo desde o fosso límpido da minha alma



Acordei com a garganta irritada e sangrando. Ontem teve lançamento de livro e eu fui. Ainda dissertando sobre a situação do negro no país e o Brasil em festa. Aliás, algumas pessoas estão em festa, creio que 90% delas. O motivo? O time do Brasil está em campo.

Na verdade isso não me revolta, pois vivo revoltado. E sim, não tenho dinheiro para cair fora daqui e fechar os olhos para as coisas que lamentavelmente vejo. É muito estranho ver centenas e milhares de pessoas vestidas com uniformes do time de futebol brasileiro nessa época, e saber que essas mesmas pessoas em outros momentos torcem seus olhos para a política, ou melhor, são os mesmos a subir em trio-elétricos e a defender políticos de má índole. E sabe por que fazem isso? Porque esses políticos lhes prometem ganhos altos e garantias de trabalho em órgãos públicos.

Quando fui à padaria me deparei com a mesma senhora deitada na calçada amamentando uma criança. Ambas estavam sujas e fétidas, acho que alheias ao que estava acontecendo, ou nem tanto, pois com tanta queima de fogos, bandeirolas, cornetas, rabecões, tambores, bumbos seria praticamente impossível não saber o motivo de tanta “alegria”. Mas ela insistia pedir as moedas, nem imagino para quê, mas insistia.

Sigo um caminho controverso. Estudo para não ter valor, enquanto poucos têm mais valor que a maioria, assim como o Ronaldo “o fenômeno”, ele é semi-analfabeto, machista, racista, e apenas pelo fato de jogar “um bolão”, ganha mais que toda a classe de professores do Estado da Bahia em um ano.

Acho que sei o porque de as crianças do meu país BRASIL não se interessarem por livros, músicas, teatro, cinema, dança, natação, hipismo, xadrez ou qualquer outra prática intelectual ou desportiva que desenvolva sua capacidade criativa e cognitiva: acho que a explicação está nas manifestações públicas e nos exemplos representativos do que é e não é relevante no Brasil. Acredito que neste momento muitas crianças estão assoviando instrumentos e sopros, enquanto bebês sorriem assustados com o barulho dos fogos e o abraço ou as palmas barulhentas de seus pais e parentes todos reunidos numa sala, ou em volta da churrasqueira, ou mesmo na varanda. Detalhe: todos embebidos em cerveja. E todos de frente à TV de LCD com 50” que compraram especialmente para a COPA.

Sem dúvida 90% dessa nova geração vai crescer adorando e reproduzindo os afetos de seus pais. Hábitos e a maioria das paixões são construídos de acordo com nossas experiências, seja dentro ou fora de casa. Espelhamos-nos no exemplo de nossos pais e daqueles que consideramos bons, capazes e inteligentes.

É uma pena que essa geração não veja seu pai ou sua mãe lendo um livro de boa qualidade. Ou se produzindo toda para assistir uma boa peça e depois testemunhá-los comentando À respeito do que viram. É uma pena que nossas crianças não se unam a seus pais para um piquenique à beira de um riacho sob árvores. É uma pena que essa criança escolherá o analfabetismo ou apenas o futebol como expressão de sua revolta e escape de suas angústias e alegrias. É uma pena que o Brasil se constitua por mais longos e longos governos selecionados às cegas da alegria comum dos brasileiros entorpecidos por cerveja barata e lazeres fortuitos.

Não tenho a receita para a densidade harmoniosa ou a saída para os males do país. E não tiro a razão daqueles que aprendem apenas à adorar o vão. Só me resguardo ao direito solitário de não estar por aqui quando todo esse firmamento ruir por completo.

2 comentários:

O acaso me troxe aqui.. disse...

Caro escritor é nescessário tanto ódio pelo futebol? Realmente existe coisas absurdas nesse universo "futi(u)bolistico"... mas é aquela velha história que a vovó fala: -" mininu, olha o exagero, tudo d+ faz mal, rum!!!!" Educação concerteza precisa ser valorizada. Estou com vc nessa!!! Abraço!!!

Lu Rosário disse...

Tulio, concordo com o que disse.. mas o que mais preocupa é a copa vir a ser aqui, no Brasil, e um forte exemplo do que virá daqui para frente é o que João Henrique está fazendo em Salvador, ao tirar as barracas da orla da cidade. Nossa, tantas pessoas que sempre tiveram aquilo como um ganha-pão e agora farão o quê? O desespero está matando cada uma delas por dentro.. e os políticos vigentes não estão nem aí, apenas preocupam-se com a copa e foda-se o resto. A Copa começou, terminou. daqui a quatro anos terá novamente e o caos já recomeça.

Beijos,
Lu Rosário.