segunda-feira, 22 de setembro de 2008

O PRIMEIRO DIA DO RESTO DA MINHA VIDA

Acordei as sete horas da manhã de hoje ouvindo um silêncio que não era o comum. Despertei sem o auxílio de um despertador ou do celular, abri os olhos, virei de lado na cama e pronto: acordado.

A estranheza do ar invadindo os pulmões fez-me lembrar que agora o dia começara. E sim, nada seria tão simples ou complexo ao ponto de desistir no meio do caminho – está certo! Uma bala perdida, acidente de carro, mas apenas isso ou uma taquicardia -, de pedras.

Um banho quase frio, não por vontade. Os dentes... granola, matinais transbordando ao leite e um suspiro de alívio com arrepio na nuca e aperto abdominal. Acho que medo só desaparece quando a morte chega e anestesia a fala.

Saí do meu quarto e depois do apartamento iluminado de sol. Três degraus de escada me fizeram ofegar de cansaço, sou réu confesso do sedentarismo. Quando abri a enorme porta de madeira, depois de pular um lambuzado vômito derramado na escada, todos os silêncios desistiram de soprar ao vento.

Percebi que a vida escorria pelas vias e vielas costurando o centro da cidade. Nunca imaginei uma Bahia assim com rostos dispersos e apressados, carros e bicicletas e muitas crianças garimpando um pão de papelão.

Atravessei a rua de homens trabalhando e comprei cabos para finalmente acessar a Internet. Em seguida sai da loja para fazer cópias das chaves caminhando a pé pelas ruas ensolaradas, segurando uma sacola plástica nas mãos. “Dois minutos” – disse o chaveiro – depois de três ou quatro, e, oito reais a menos na carteira minhas duas cópias estavam prontas.

Voltei para casa e selei o cabo na parede com o auxílio de fita adesiva. Ufa! Demorou mais do que eu pensava, só consegui acesso lá pelo meio dia, quando o técnico da lojinha subiu e desceu minhas escadas por duas vezes reclamando de sua barriguinha nada gentil.

A tarde atravessou o meu dia, talvez o primeiro do resto da minha vida arbitrária. Estudei o chato o inglês e até pensei em ouvir as aulas de francês, mas não tive vontade. Ultimamente tem faltado vontade à minha vida, e muitas vezes vontade de ter vontade mesmo.

Visitei a ONG onde sou colaborador voluntário e logo depois de uma reunião descobri que tenho mais responsabilidades para a manutenção da minha desvantagem de ação do que para cooperação social.

A noite caminhou tranqüila sobre o asfalto de terra branca. Os faróis elucubrados perdidos entre automóveis nervosos de sobriedade, e o vento despretensioso marcando cada segundo perdido por todos. Fui ao inglês e voltei pela mesma rua pensando no fato de tomar um sorvete porque não estava em um carro para ser estacionado, ou mesmo acelerado por hipnóticas urgências.

Entrei na sorveteria e – não posso negar -, pensei no amor e na idéia de não se ter um amor, ou mesmo no fato de não ter o equilíbrio da hora para cozinhar o almoço ou despertar um desejo amortecido. Pensei na minha cama azul do jeito que a deixei pela manhã, tal como as fotografias, o céu e os sonhos.

Não preciso mais centrar, responsabilizar ou falar. Não quero justificar: o quê? Para quem? São correntes deslocadas, são sentidos presumíveis e vorazes... quando um toque quente extinto lhe toca a mão e beija, e você chora por dentro para não mostrar o que é. E você ri para dentro para não abraçar o que quer e despertar o sortimento egocêntrico do mito do outro; quando nessas horas se faltam e falta.

A liberdade é um mito, bem como se faz o desejo e o gosto. Mas a minha alma tem riso, olho, boca e corpo, e chora, e canta, dorme e acorda e grita e ama o desconhecido e sólido da matéria.

Lembrei do trabalho e do prazer em senti-lo comigo, depois dispensei, por considerar capitalista demais o meu tempo mesmo fragilizado. Pensei naquilo que eu queria tocar e no que não poderia amar como amo de dentro para dentro sem recíproca ou entendimento. Acoplado nos sinais vermelhos que impedem os passos, e os olhinhos de ponte rindo soltos para mim.

Hoje eu acordei as sete da manhã ouvindo o silêncio da minha alma que ama sem ao menos entender ou sentir o que seja o amar mesmo piegas ou gregoriano; mesmo anticéptico ou descartiano, fluído... como os suores evaporando aos céus... e todos os micróbios assentando leves junto a poeira sobre os pés.

5 comentários:

Produções Amante das Leituras disse...

A tua escrita e reflexão merecem sempre o meu abraço.

morianihil disse...

Thúlio,amei seu texto.Me senti na Bahia de todos os santos fazendo o mesmo percurso descrito.Até puder sentir os cheiros e compartilhar os sentimentos descritos por você.
Parabéns!
abração

BRUNO BLACK disse...

Voce nobre ser tem um dom mto apurado e especial...alem de ser um grande amigo...seus textos são faceis de ler e sua sensibilidade nos faz ter cada vez mais pausas no café seja na manha linda que nasce ou na noite que cheia de romance ns invade as manhas...
vc parece um sol que palavreia as nossas almas...

SUCESSO ARTISTA...

obrigado pelo apoio...

vc é um genio

DESCULPE MEU TECLADO ESTÁ DESCONFIGURADO....AINDA....

BRUNO BLACK

Maze disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Maze disse...

absurdamente lindo...

alskander