sábado, 30 de agosto de 2008

RETRATOS



O vídeo é do poema “Retrato”, de Cecília Meireles, na voz do ator Paulo Autran. A imagem inserida é de autoria do artista plástico José Ulisses Gonzales Silva. Os retratos humanos se repetem e o mais se sobressai do menos, massacrando-o com a voracidade da morte e da guerra, tal como o tempo sobre a jovialidade e o alento em detrimento da cólera.


Ele entrou em sua casa, tirou os sapatos, foi até a pia e tomou água. Olhou a sua volta e observou o quanto tudo estava desarrumado, por um instante pensou na possibilidade de arrumar, mas logo desistiu ao refletir sobre as finalidades.

Seguiu até o escritório e ligou o computador, pois não perderia o seu tempo assistindo televisão. Depois de seguir os olhos por todos os sítios e notar que nenhum amigo aparecera no programa de mensagens instantâneas optou pela leitura.

“[...] João, por tudo que é sagrado. Juro não brigar, obedecer em casa, só faço o que você quiser. Deixe que viva a seu lado. Rosinha não quer ir para o colégio e chora muito. As meninas perguntam se tem duas mães, porque você vive com a outra. [...]”

Embora interessante, percebe que a prosa fez-se memória em sua mente treinada. Procura outro livro e outro, mas todos lidos. Todos os dez sobre a estante magra colada à parede sobre a escrivaninha. Senta-se exausto na cadeira e traz o teclado para as pernas, pensa: “quem sabe alguma notícia interessante ou novos livros...”. Entre um sítio e outro, diálogos e fotos aparentemente semelhantes se não fossem as feições. As listas dos mais vendidos e as resenhas ligeiramente atenuantes... suspiros.

Num instante Márcio acaba de entrar e diz “Olá!”. A deixa para esticarem o papo até as três da madrugada. Mulheres, festas, literatura pobre, teatro arruinado, carreira, faculdade, os velhos tempos e o distanciamento do doutrinável.

- ...essa é a maior ignorância do homem!
- O quê?
- Eles se ascendem sobre os outros e se trancam em ignorância. Não se lembra do que dizia Nietzsche?
- Sei não, esses filósofos todos pirados.
- Nós é que somos.
- Confia demais em livros!
- Confio nada. Confio na sabedoria.
- Mas a sabedoria não está nos livros?
- Não! Não está.
- Vai dizer que acredita nessa balela de que o pescador é mais sábio que um doutor?

Uma pausa. Ele observa calmamente o teto da sala e nota a luz penetrando a vidraça ao reluzir no ambiente.

- Os livros são produtos que precisam se adequar a capacidade das pessoas.
- Você é piradinho da Silva mesmo!
- Se estivéssemos falando dos livros da antiguidade tudo bem. Ali continha acúmulo de experiências e tato.
- ?
- Por exemplo, antes os livros eram criados por uma pequena elite de sábios. E quem quisesse decifrá-los precisava se adequar a eles. E olha que os livros eram escondidos a sete chaves!!!
- Sim, mas hoje ninguém mais tem tempo de ficar entendo coisas difíceis. O tempo urge!
- Poxa... acho que depois da Idade Média e da inserção do Cristianismo no poder social e intelectual os livros se tornaram produto em prol da abstração e não mais do conhecimento!
- Como você é metido! Aceite a vida como ela é.

Ele paira no ar, como se o inimaginável o arrebatasse do corpo: a consciência em pó. A luz está absolta das frestas, penetram sem medo e o toma o corpo desnudo. Ele solta um risinho ensimesmado debruçando-se sobre os braços repousados no teclado. Se levanta e caminha até a pia, no caminho um espelho “está velho demais para vaidades”, ignora a imagem, as louças e a sujeira. Apanha do sofá o controle remoto e liga a tevê no programa de esportes.

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Retratos by Túlio Henrique Pereira is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil License.

2 comentários:

gdec disse...

Gostei de parar aqui.
V. vai longe, meu amigo, se mantiver esse espírito de procura, anseio, ambição e modéstia -virtudes que eu gostaria ter .
seu
Geraldes de Carvalho

Nanda disse...

Oi, Túlio; acabei de ver seu comentário na 'caverna'; fiquei bem feliz. Depois te mando o endereço, ok? E você tem notícias da Sandra? Não estou conseguindo visitar o blog (Gata por um fio). Um abraço!