quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

A CAMA

Salvador Dali - O Contador Antropomórfico - 1936. "As gavetas do inconsciente segundo as teorias de Freud são 'espécies de alegorias da psicanálise, que ilustram uma tendência para aspirarmos o odor narcísico de cada uma das nossas gavetas'"

O olhar inebriado percorre a sinuosidade do ambiente. Procura pulsar cada gesto frente ao seu maior desejo físico, latente, expansivo e convidativo. Morde os lábios com afinco, retrai o peito em busca do aquecimento térmico do corpo; procura a resposta intravenosa em meio aquela timidez despojada: quer falar, mas, no entanto, – se fala, acaba com o clima. Não. A sutileza age por si. Um silêncio ensurdecedor e o fruto da inquietude limitada às observações:
- Calor, né?
Ele procura subterfúgios desconexos para abafar a aproximação conduzida. O fogo implode em ambos; requerem a prática, o deleite, a sobeja dos prazeres carnais, a utilidade completa de seus corpos unidos num só; sobre a cama. Aquela enorme cama vazia que os chamava em gritos silenciosos de volúpia.
Todo mundo desconhece voraz ânsia. Toda a rua ausente dessa necessidade de sentir a dor que o prazer concupiscente é capaz de provocar e alterar com chamas cada gole de saliva que escorre por entre aqueles lábios carnudos, avermelhados e sedentos de desejo por tocarem aquela boca rosada, esbranquiçada pela vergonha de despir a camisa simples, branca de algodão pobre.
A campainha toca simplesmente para a infelicidade dela que se rende ao descanso sobre a cama. Imediatamente ele levanta, pega o pequeno pedaço de papel sobre o criado e se compõe:
- Posso sair?
- Claro que pode.
Eis o refúgio que ele procurava, respira fundo ao encontrar o patrão rasgando a sala de jantar caminhando em direção ao quarto.
- Bom dia, Homero!
- Bom dia, senhor!
Impacientemente, não há lugar calmo no ambiente em que Elvira se ajeite. Nada ao ponto, o café amargo, o papo furado do marido, jantar sem gosto, água clorada. Não há desculpas condizentes para a rejeição notável com a qual oferece: Bom marido. Ele reclama o amor, que dela já é inexistente, no entanto, fiel, ainda que fisicamente, expõe.
- Notícia boa!
- Que é?
- Vamos pra Bahia semana que vem. – Conciso procura ser agradável e conveniente. Reaproximar dela é seu objetivo - Tratarei de negócios, mas...
- Não me interesso pelos seus negócios.
Retira-se, antes mesmo que ele a perturbe com seu sentimentalismo barato de homem pequeno. Nessas alturas, quer além do que o executivo de barriga saliente possa proporcionar-lhe. Quer a vitalidade, assim como a virilidade da vida em sua mais pura indecência.
Permeia seus braços ao encontrar seu alvo cortando a grama: mais que tudo – quer olhar cada detalhe, a gota do suor que transcorre o caminho marcado pela vértebra, as ondulações expressivas das laterais do bíceps, os braços torneados, avantajados pelo natural trabalho pesado. Ele a observa pela sacada, o marido, desde antes já era notório o desejo sentido pela esposa, “Ela o quer!” – pensa calmamente sem desespero. Se oculta antes mesmo que ela tenha conhecimento de sua notoriedade.
O alvo se vira, à sua frente, tudo mais claro: a boca com a qual tanto sonhou. Os ralos pelos sobre o tórax. Tudo muito selvagem e inédito, a rusticidade em sua natural obrigação de servidão. O cheiro massacrando a maledicência ocultada pelo rumo estabelecido de sua vida conduzida pelos princípios e vontades à imagem da família humilde de onde viera. Num instante as lembranças de um passado em que tudo fora comedido, e seus desejos estagnados para a preservação de um único valor: a moral. Eis agora um novo tempo e uma posição de privilégios; sente-se o exemplo vivo da nova mulher do século vinte e um. Ela é mulher – sente isso - “Ele é um homem. Homem!” – a saliva engrossa e se atrasa ao percorrer o esôfago.
- Deseja alguma coisa, dona?
Precisa aterrissar sobre um ambiente em guerra, apenas para penetrar no pensamento do jardineiro. “Ele sabe?” – Inconscientemente falece, o mundo a sua volta, “Ele precisa saber!” – arrebatada por sua própria consciência, ela consegue pairar por lugares remotos, onde apenas aquele cheiro de homem massacra lubrificando seu órgão e apontando o mamilo quase ao perfurar o vestido fino de seda.
O jardineiro completamente alheio às reações físicas do corpo de sua patroa, ingenuamente troca, sozinho, palavras que não são recíprocas. Testemunha um comportamento incomum de alguém que lhe deveria tratar com imposição, fazendo com que fosse figura de respeito. Ela quer voltar a terra, alguma coisa não permite que o faça.
- A senhora tá se sentindo bem?
- Como? – aterrisa.
- Tô falando e a senhora não responde.
- Ah!...
A desculpa incerta, ilógica; completamente esfarrapada, sem nada de acréscimo, nenhum sinal. Queria transmitir o seu desejo à mente dele, mas era vão. Não sabia como. É casada, não podia falar: não fala. Recorda os momentos em que era levada ao cinema. Tenta buscar o motivo pelo qual se casou, se hoje o respeito lhe falta. Teme sentir os valores se dizimarem em cada atitude tomada.
Havia sentimentalidade misturada a erotismo exalando daquele corpo maduro de mulher durante o jantar. Enquanto ele fala, ela amacia as carnes do jardineiro com total exortação e provento. Seu olhar penetra no dele como se tentasse gravar sua imagem. Requerer o processo antecessor já perdido e subtraído por entre as entranhas másculas e cobertas da rusticidade merecedora de um bom mancebo. Beijos macios jamais trocados junto ao marido – intermináveis, inconseqüentes, cheios de flagelo e de falsa moral, “Não almejo moralidade” – escapa aos murmúrios.
Ele argumenta-lhe um fato distinto. Percebe a maresia posta na alma dela. Olhos emergidos em ilhas secretas, perdidas em qualquer parte de outro cosmos.
- Como? – ela questiona assustada. Não estava presente, pois pairava em sua libido completamente aguçada. Observa a sogra atenta a tudo, tem medo daqueles olhos experientes e certeiros.
Sua conduta não desperta ira qualquer no marido. Parece extasiado. Seu olhar perante a mãe admite desconhecer a ausência da esposa, porém o que há de ocorrer durante gestos inusitadamente comoventes e perceptíveis a qualquer um que esteja presente.
- Falávamos do sítio, filha. – interrompe a sogra com seu tom de ironia, típico de uma educação seleta.
A sogra em um gesto de complacência tenta enganchá-la a corriqueira conversa infindável. O marido esnobe, a destrata ignorando. Termina o prato ainda intocado e se licencia do jantar sem o consentimento dele. Ela precisa do frescor da brisa do jardim, argumenta. Sabe que é lá, onde encontrará o objeto que anseia, perdido em qualquer parte externa da casa. Não o encontra de imediato; lamenta. A sogra segue ao seu encontro; sua conversa banal tenta apagar a atenção de Elvira, que troca o olhar da velha pela imagem que lhe surge no portão adentro.
A velhota é vivida. Capta o olhar de busca da nora e de imediato procura o filho, que está de pé, logo ao lado, incerto de qual atitude tomar. Vê sua mãe descontente: ele abaixa a cabeça e entra.
- Há algo de errado? – ela questiona.
- Hã?... Não, senhora! – A nora tem medo de ser desmoralizada.
Quase que Elvira é obrigada a deixar o jardim. Ciente de sua leviandade segue o marido enquanto a sogra caminha até à rua.
Fim de semana longo termina. Todos os planos traçados. Ela não vai à Bahia, mas, propõe uma mentira condizente: sua mãe doente precisa de seus cuidados – enquanto o que quer é agir para sua realização íntima, até então perturbadora.



***

Dia de céu limpo, casa arrumada, empregados dispensados e malas prontas. O marido sabe; sempre que viaja a esposa também se ausenta. Ao final do expediente de trabalho surpreende-se com um telefonema inesperado dela, são suas malas prontas para o embarque, “Ela nunca as fizera!” – raciocina.
Tão empolgada com tudo, chegam a fazer amor no banheiro. Ela não pensa no marido, que completamente seduzido se esquece de sua frigidez e insensibilidade. O beija a boca num enlace digno de núpcias. O quer intensamente introduzido no seu corpo num calor jovial e enfurecido. Solta palavras recitadas em versos carregados de maledicência e conteúdo chulo, quer ser qualquer mulher que preze o valor do desejo carnal, quer destrinchar a sua moralidade boca afora, e engolir toda a sinuosidade daquele corpo que a incendeia por completo numa mistura frenética de tesão passional e conturbação.
Após tanto, um legítimo banho. Ela o faz companhia até o carro: o maior orgulho que ele ostenta é poder trocar o automóvel anualmente. Elvira diz que parte em poucas horas – falta detalhes corriqueiros que dependem de atenção e calma. Precisa se apressar para pegar o vôo das seis. As notas da viagem são imprescindíveis. Nunca mentiu para o marido e, depois de muito, é melhor visitar a mãe mesmo que só por um dia.
Ele chega no final da semana – acredita – perfeito para agir concisamente suas investidas com o serviçal. Por enquanto, era preciso mudar o ambiente, ouvir conselhos, traçar estratégias para não errar. O casamento de dez anos estava em crise; é necessária a certeza sentimental para botá-lo em fim.


***


Terça-feira tumultuada: volta às pressas para casa. Não há ninguém para impedi-la de ousar seus desejos instigados. Avista um outro carro na garagem: “Não acredito que voltou!” – seu semblante é dominado pelo desânimo. Seria um sinal de Deus para que não traísse o marido? Decide não alardear sua chegada – caso ele questione sua presença o que dizer? – “Mamãe melhorou?” – adentra a sala: roupas estão espalhadas por todo o vão dos cômodos e móveis – roupas demais para um só. A porta do quarto entreaberta e gargalhadas. Ele está no banho – “Melhor não incomodar” – pensa - segue até a cozinha, um café lhe refrescaria a memória para uma desculpa sensata, agarra a xícara com a força de sua curiosidade para saber o que o marido estaria fazendo em casa. No mais, o nervosismo insiste aumentar.
Ainda ouve gargalhadas, não apenas um – “Estaria ao telefone usando o viva-voz?” – mesmo incrédula da hipótese – Ela nunca o testemunhou dessa maneira, talvez os negócios tivessem sido satisfatórios. Se assim for, ele nunca se importará com a sua presença; não questionará nada e, então, ela poderá tapeá-lo outra vez.
Enche os pulmões numa lufada de atitude decisiva, levanta-se e caminha em direção ao quarto segurando a peça de louça. Segue concisa à porta ainda entreaberta – freia o passo ao notar movimentos – se aproxima cautelosa. Ele esta sobre a cama: Homero! – um instante rápido para uma recapitulação de seus desejos. Aquele homem desejado, despojado sobre a cama, livre para ser apreciado da maneira que convier. Uma súbita reação pavorosa - o jardineiro mantém seu corpo nu estendido sobre o dele -, “Meu marido!?!”: A xícara se espatifa no chão.







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